Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

para o pessoal de SP

Acabo de ver este post no blog do Antonio Carlos Miguel, no site do jornal O Globo (puxa vida, post, blog e site numa frase só, quem diria!). Pelo que entendi do texto abaixo (qualquer tipo de sangue serve), ele deve estar precisando receber plaquetas. Quem estiver em SP e puder ajudar, ou mesmo divulgar, será mais do que bem vindo!

E que Deus e as forças da música abençoem nosso amado Johnny!

Johnny Alf,  grande compositor, pianista, cantor, um dos precursores da bossa nova, precisa de ajuda. Quem puder fazer algo por "Genialf" (como Tom Jobim chamava-o), abaixo as infos passadas por seu empresário, Nelson Valencia

Oi Pessoal! 

O Johnny entrou em uma fase mais agressiva do tratamento, está fazendo quimioterapia, em função disso, acontece uma baixa de imunidade, por isso tem precisado receber transfusão de sangue. 
O Banco de Sangue do Hospital Mário Covas, está pedindo doadores. Quem puder ou conhecer quem possa, por favor, peço essa ajuda. 
Apesar da agressividade do tratamento, no geral, ele está reagindo bem. 
Ontem ele me pediu para levar as partituras, pois quer montar o roteiro para um novo show, pesquisando músicas que não toca há muito tempo. Esse é o melhor sinal, é o milagre da música. Assim seja! 

Hospital Mário Covas - Fone 2829-5000 
Banco de Sangue - procurar a Catarina 
Doar para Alfredo José da Silva 

De 2a. a sábado das 8 às 13h00 
Idade de 18 a 65 anos, com mais de 50 Kg 
Pode tomar o café da manhã 
Qualquer tipo de sangue. 
O Hospital fornece atestado para quem precisar. 

O Hospital Estadual Mário Covas está localizado na Rua Henrique Calderazzo, 321, Bairro Paraíso, em Santo André, próximo ao Shopping ABC e ao Hospital Brasil. 

No endereço abaixo tem um mapa com a localização: 
www.hospitalmariocovas.org.br/internas.aspx

Abraços, 
Nelson 


Sábado, Dezembro 05, 2009

porque hoje é sábado...

... e dando os trâmites por findos, há a perspectiva de domingo, hoje é dia de post. Nada de trabalho, porém. Só brincadeiras. Dia de ficar quietinhos em casa, que a rua anda cheia de gente, carros, flamenguistas, gremistas, turistas. Eu torço pelo Fluminense e já moro no Rio desde que nasci. Posso sobreviver ao Maracanã lotado amanhã e à inauguração da árvore de Natal da Lagoa, aqui pertinho de casa, sem sair do meu canto e sem passar pelo trânsito infernal que já se anuncia. Já organizei as provisões, os DVDs para assistir, tudo o de que se necessita para uma hora dessas. Daqui não saio, daqui ninguém me tira.

Nos últimos dias andamos já com a cabeça no futuro próximo - ano praticamente vencido, 2010 ali na esquina acenando com viagens e trabalhos que não imaginaríamos há um mês atrás. É sempre assim. Parece que não vai acontecer nada, e de repente é tudo ao mesmo tempo agora. Por isso mesmo, quanto mais quietos em casa, no momento, melhor. 

O primeiro semestre de 2010 parece que vai ser uma loucura, tudo ao contrário do que eu estava planejando (ficar mais um pouco por aqui, voar menos, etc). Na verdade eu adoro viajar já tendo chegado nos lugares. O processo de ida é que me esgota. As horas de voo, o perrengue de passar por imigrações e alfândegas, sempre desgastante e cada vez pior desde o 11 de setembro. Mas não tem jeito, o mundo chama e a gente tem de ir, pela sobrevivência nossa e da música em si. Ficar só no Brasil, infelizmente, não paga nossas contas. Não há patriotismo que aguente, nem autoestima. Perdoem o personalismo, mas é a realidade de um músico brasileiro. Eu e tantos, sempre com um pé na estrada.

E assim foi que nos pegamos ontem à noite, mapa-mundi estendido à nossa frente, tentando calcular as melhores rotas para fazer a ligação entre uma turnê e outra. Fora a possibilidade de não estarmos presentes para votar no segundo turno das eleições presidenciais, caso haja, o que muito me incomoda. Cresci e me tornei adulta sob uma ditadura, e valorizo muito este momento.

Mas agora tudo o que eu quero é sossego. Aqui na esquina tem o melhor sorvete da cidade. E sorvete é tudo de bom!


Sábado, Novembro 28, 2009

amor (parte 2)

Fiquei comovida com o emocionado comentário da Xica (leitora americana que está escrevendo direitinho em português) sobre meu post anterior. Embora eu estivesse falando sobre o amor de forma genérica, tentando ressaltar a importância do amor romântico na vida de qualquer um(a), o fato de aquele post ter sido feito a partir de uma reportagem sobre o amor romântico entre os gays acabou trazendo o assunto à tona. Pois, esperamos, este não será mais no futuro o amor que não ousa dizer o nome, o amor discreto pra uma só pessoa.

(Xica sonha com um amor no Brasil. Quem sabe? Boa sorte!)

A foto do Rio aparece aí porque nossa cidade foi considerada, em recente pesquisa internacional, como o melhor destino de viagem para gays no planeta. Atualmente temos um governador e um prefeito que, apesar de heteros na vida, são abertamente gay friendly; ou seja, há esforços em nível administrativo para que a cidade receba bem esta comunidade. Isto é um tremendo avanço, pois volta e meia vemos no Brasil casos de brucutus explícitos agredindo mulheres, gays e quem mais tenha qualquer postura fora dos chamados 'padrões de comportamento'.

Na música brasileira, minha área de atuação, sempre tivemos figuras gays de ambos os sexos. Desde os anos 1930, com o fabuloso e enrustidíssimo Assis Valente, até os gays mais visíveis de hoje. Como sempre, as mulheres foram mais corajosas (ou mais doidas) e se expuseram mais, a partir da minha geração. Tive e tenho muitas amigas, colegas de profissão, que botaram a cara de fora, virando até piada de TV - quem nunca viu as sátiras do pessoal do Casseta e Planeta, mostrando as 'cantoras de MPB' com visual sapatão? Quando fiz meu disco 'Feminina' em 1980, havia uma enxurrada dessas novas cantoras e compositoras aparecendo, 99% delas homo ou bissexuais. Meu disco tinha esse nome porque falava de questões femininas, era uma mulher falando de seu ponto de vista em todas as faixas. Mas o título provocou uma polemicazinha na época, exatamente por ser tão... 'hetero'. Parecia que eu estava querendo marcar minha diferença ao contrário, quando na verdade tudo isso era mais efeito do momento em que o disco foi lançado.

Já os homens na MPB, de maioria hetero, foram mais cautelosos (fora raras exceções, como meu querido Ney Matogrosso, que fez exatamente o que fariam as primeiras feministas: figurativamente, a queima da cueca). Nosso amado e genial Johnny Alf, hoje aos 80 anos, por exemplo: gay, negro, moderno demais e musicalmente sempre à frente de seu tempo, optou pelo ostracismo. No momento em que a bossa nova, que ela ajudara a inventar, estava explodindo no mundo, Johnny fez o caminho inverso e se internou na noite paulistana, de onde nunca mais sairia. Quando o convidei para participar comigo de uma série de shows nos Blue Notes japoneses, em 2002, fiquei surpresa em saber que era apenas a segunda vez na vida que ele ia lá. Um músico de sua estatura teria merecido várias turnês mundiais e todas as homenagens do mundo através dos tantos anos de carreira. Mas ele praticamente se escondeu, por modéstia natural - mas também talvez por temer as barras que viriam, caso tivesse aparecido mais.

Nossa única parceria, "Plexus' - música dele, letra minha - fala um pouco disso tudo, ou do que eu gostaria (na minha cabeça, pelo menos) que ele dissesse ao mundo:

                                           PLEXUS

                                                 

                                                             (Johnny Alf/ Joyce)


Olha

já fiquei livre de qualquer complexo

já vi no espelho o meu reflexo

mesmo que o discurso seja assim sem nexo

mesmo que eu te deixe com esse ar perplexo

não diga pro povo que eu não presto

fale do meu comportamento honesto

em nome da nossa amizade

mesmo que você fique pouco à-vontade

mesmo que eu não possa apreciar seu gesto

e o resto, você já sabe...


Diga que eu sou gauche na vida

mas sigo em frente, invento uma saída 

pra resolver qualquer parada

mesmo que entre nós não possa haver mais nada

mesmo que você não passe de um pretexto

a gente se vê pelas quebradas

qualquer esquina de qualquer contexto

e eu mesmo assim me manifesto

mesmo que o meu texto não seja verdade

mesmo que o meu samba seja assim modesto

e o resto, você bem sabe...


(você bem sabe, eu sou rapaz de bem...)



Domingo, Novembro 22, 2009

amor


Este casal da foto está junto há 32 anos. Aliás, 32 anos era justamente a idade que tínhamos quando fomos assim fotografados no estúdio, durante as gravações do 'Feminina', em 1980.

(O casalzinho está visivelmente flutuando em nuvens. Mergulhado um no outro. Quem nunca passou por isso, sorry. É bom demais, e não acontece a toda hora.)

Leio no jornal uma matéria sobre a novidade da busca do amor romântico pelos gays, uma comunidade que, diz a lenda, não estaria nem aí para isso. Mas hoje a maioria quer encontrar um parceiro estável, casar, até mesmo constituir família. Como diz um dos entrevistados, 'ninguém aguenta mais o sexo nômade'.

Na mesma matéria, leio uma declaração que me envergonha: uma escritora, feminista das antigas, diz que o amor romântico é um retrocesso, e que "com os gays vai acontecer o que aconteceu com as mulheres, que ficavam em casa de bobes no cabelo, gordas, enquanto os maridos se viravam com as secretárias". Perdão, cara senhora, mas de que homens e de que mulheres estamos falando? Hoje, em pleno século 21, ainda existem maridos que se viram com as secretárias e deixam as infelizes esposas em casa? Pode até haver, mas as mulheres (graças aos esforços das feministas da primeira geração, justiça seja feita) há muito deixaram de ser bobas. E os homens, por sua vez, aprenderam a ser mais sensíveis - os inteligentes, pelo menos, e são esses os melhores, os que nos interessam.

O amor romântico de retrocesso não tem nada, ao contrário, é um avanço que a civilização ocidental foi conquistando desde o final do século 19. Antes disso, os casamentos eram transações comerciais entre as famílias. O século 20 raiou com a possibilidade de cada um casar oficialmente com o objeto de sua paixão, e por escolha própria. Um avanço, repito, ainda que lá pelos anos 40/50 o moralismo vigente tenha tornado mais amarga a geração de nossos pais. Mas que nossa geração, a dos jovens dos anos 60/70, se encarregou de demolir.

Lindas e exemplares foram as declarações dos gays entrevistados, todos conscientes de que fundamental é mesmo o amor, all you need is love, qualquer maneira de amor vale a pena, etc, etc,  como sabiamente proclamam as canções. Vejam o que eles dizem:

"Essas nomenclaturas (gays, lésbicas, heteros) não têm mais sentido. Todos somos 'bicho-gente', e sendo assim, podemos viver um amor romântico. Seja com quem for, da maneira que for, desde que seja amor."

"O amor jamais será fora de moda ou retrô. Ele é o ar que me alimenta."

"É importante para todo ser humano ter essa experiência, pelo menos uma vez na vida."

Na minha modesta opinião feminina, nós mulheres não precisamos mais querer ser iguais aos homens de antigamente no quesito 'relacionamentos', com seus erros e inseguranças, trocando de parceiro a toda hora e separando o amor de casa do amor da rua. O tempo de queimar os sutiãs já passou, e hoje queremos ser - apenas - tudo: criar nossos filhos e filhas (em parceria, de preferencia), ser profissionais competentes (aí sim, iguais), amar apaixonadamente (nem que seja só uma vez). 

Como, acho eu, pessoas de todos os sexos querem também.

O mundo já anda complicado demais, e o amor a dois pode ser um grande alívio nesta vida. Portanto, jogue suas mãos para o céu, e agradeça se acaso tiver um.

PS- e não é que ligo a TV e vejo Ellen de Generes e esposa mostrando o video do casamento delas no programa da Oprah? As duas de branco e tudo. Na California já é possível ser gay e botar no papel o grande amor. 


Terça-feira, Novembro 17, 2009

na casa do Villa

Parece um Groucho Marx sem o bigode, mas é Heitor Villa-Lobos, irreverente como todo carioca - nosso pai/avô , morto há 50 anos, em 1959 - mesmo ano em que João Gilberto lançava seu primeiro disco, 'Chega de Saudade'. Rei morto, rei posto. Isso não é mera coincidência.

Na foto, nosso Villa demonstra o método chamado 'manossolfa', que nós, crianças dos anos 50, ainda aprendemos nas aulas de canto orfeônico. Cada sinal desses representava uma nota musical. Era uma forma de ensinar solfejo. No Colégio São Paulo, em Ipanema, onde estudei, um padre nos ensinava este método, largamente difundido na década anterior. Uma vez, numa entrevista para uma hoje falecida revista dirigida por Ziraldo, perguntei a Dori Caymmi (também irreverente como todo carioca, etc, etc...) se ele não achava que toda nossa geração de músicos existia graças ao Villa. E ele me respondeu, bem ao seu jeito: "esse negócio de dedo não é comigo". Mas a verdade é que aprendemos com o Villa, sim, e isso não dá para negar.

É famosa a história que o Tom contava sobre sua primeira visita à casa de seu ídolo, mas aqui a repito para os mais novos. Villa morava no centro do Rio, na rua Araújo Porto Alegre, local barulhento onde passavam bondes, ônibus, automóveis, muita gente na rua. E dentro de casa, o som ligado na novela da Rádio Nacional. Tudo ao mesmo tempo acontecendo, e ele imperturbável, sentado no chão, escrevendo suas partituras. Tom, impressionado, perguntara: "Maestro, como o senhor consegue?" - ao que Villa teria respondido: "meu filho, o ouvido de dentro não tem nada a ver com o ouvido de fora".

Num dia especialmente tumultuado aqui em casa, fiz esta música para os dois e também para o Vinicius - todos mestres em usar o ouvido de dentro como maior referencia. Ela está no meu CD 'Gafieira Moderna', de 2001:

                                      NA CASA DO VILLA

Na casa do Villa era uma zona 
Diz a lenda, com razão
Com rádio, com novela e com vitrola 
Atrapalhando a criação
Nem por isso o digno maestro alguma vez se perturbou
O ouvido de dentro é o que importa
Isso foi ele que ensinou

Na casa do Vina era uma festa
Como na casa do Tom
Com música, parceiros, namoradas
Desde a Gávea até o Leblon
Nem por isso o mestre ou o poeta desistiam das canções
O ouvido de dentro é o que importa
Nisso é que eles eram bons

Hoje em minha casa tem criança
Cachorro e televisão
Tem gente aqui chegando de viagem
Também tem gente que não
Nem por isso a música me larga 
Triste, sem inspiração
O ouvido de dentro é o que importa
Então eu fiz esta canção


Quarta-feira, Novembro 11, 2009

apagões


E desfez-se a luz! bem quando a gente acabava de assistir pela enésima vez a 'High Society' (com Frank Sinatra, Grace Kelly, Bing Crosby, Louis Armstrong e a deslumbrante música de Cole Porter) - já estávamos nos extras, com a coadjuvante Celeste Holm contando como fora o ambiente no set de filmagem, com Grace se preparando para o casamento com o príncipe Rainier de Monaco - e nossa rua ficou às escuras. Não era só nossa rua, era o bairro, e depois ficamos sabendo que não era só o bairro, era a cidade toda, era o estado, eram 10 estados, era até o valoroso Paraguai. Era um apagão daqueles que o vosso atual presidente utilizava como assunto de campanha política nos idos de 1999. Ei-lo de volta (o apagão, não o vosso presidente), lampeiro e faceiro, dez anos depois. Somos um país de incompetentes. Dá uma chuva forte e tudo para, independente de qualquer governo.

Os apagões da minha infancia (quando assisti 11 vezes a "High Society" no cinema, pois home video ainda não havia) eram diários, justiça seja feita. Havia racionamento pontual de luz, geralmente lá pelas sete da noite, e quem chegasse cansado do trabalho, como minha mãe, tinha de subir, no caso dela, seis andares de escada - e no escuro. Também faltava água, por supuesto. Seis andares de escada carregando baldes. Não se estava subindo o morro, era um prédiozinho de classe média-bem-média no Posto Seis, Copacabana. Era o "Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz" das marchinhas. A vida era essa e não se imaginava que fosse diferente. 

Aprendi desde pequena a tomar um banho completo com a água de um (um!) balde, na quantidade exata para até lavar a cabeça. O futuro já tinha começado, antes de Hugo Chávez e do aquecimento global. Meus netos, mal-acostumados com banhos de vinte minutos ou mais, terão dificuldades em lidar com isso um dia? Possivelmente. Eu, se cá ainda estiver, estarei preparada para ensinar a eles as técnicas que aprendi com minha mãe. Até porque vinte minutos com a água correndo é desperdício demais, e isso eu já estou avisando desde agora.

(Em 1977 eu estava morando em Nova York quando houve o famoso black-out na cidade, no chamado "Summer of Sam". Não vimos nada: eu e Tutty estávamos recém-juntos, e portanto ocupados demais em descobrir os mínimos detalhes tão pequenos de nós dois. Sequer saímos de casa para ver o que estava acontecendo, ao contrário - foi uma boa desculpa para ficarmos ainda mais enfurnados do que já estávamos. Não sei se houve outro apagão americano daquela magnitude. Perdemos a chance de testemunhar um fato histórico. Talvez porque pra nós, jovens brasileirinhos do Terceiro Mundo, um evento desses não fosse nada de incomum.)

Agora estou sem telefone em casa, e avisada de que devo economizar água, já que o apagão atingiu os reservatórios do Rio. Pelo menos posso usar o computador de novo. A garotada mal-acostumada do século 21 é que vai estranhar a situação. Mas se não houver apagão mental, tudo se ajeita.


Domingo, Novembro 08, 2009

saias, pernas e afins

Não era minha intenção, mas não posso deixar de comentar o impressionante desfecho do caso da moça de São Bernardo do Campo, que foi às aulas na Uni(tali)ban de mini-vestido rosa shocking, e por isso sofreu constrangimentos, ameaças de estupro coletivo, xingamentos diversos e por pouco não foi devidamente apedrejada pelos gentis colegas, cerca de 700 rapazes nervosos com a presença de um par de pernas de fora no sacrossanto recinto da universidade. Foi salva pela PM, que providencialmente se apresentou para resgatá-la. 

Como carioca da gema, e ainda por cima da geração anos 60/70, não consigo entender qual a dificuldade destes jovens com a visão de partes de um corpo feminino. Certamente a mesma lá do Afeganistão e de outras localidades igualmente pudicas. Considero, com toda certeza, que a estética da moda feminina atual é de extremo mau gosto. As meninas brasileiras e americanas do norte das novas gerações têm optado por modelitos mais para o vulgar, na minha modesta opinião - nos Estados Unidos, as estrelas pop usam cada um de arrepiar, e por aqui o que as meninas têm como modelo são as BBBs da vida. Isso não me impede de considerar que cada pessoa veste o que lhe der na telha, e ninguém tem nada com isso.

Hoje leio nos jornais que a universidade finalmente tomou uma providencia: expulsou a moça, por "falta de decoro". Os 700 marmanjos que pretendiam agredí-la foram poupados. Sugiro às alunas desta nobre instituição que preparem as burcas para o próximo ano letivo.

PS- lendo alguns comentários de leitores, lembrei da primeira visita do nosso genro sueco ao Rio, em 2004. Na Europa o topless nas praias - e às vezes mesmo nos parques, no alto verão (caso dos países escandinavos) - é totalmente normal. Nosso visitante, garoto de Estocolmo, não entendeu nada quando percebeu que por aqui todo o mundo fica nu no Carnaval, ao vivo e a cores na TV - mas na praia, qualquer tímida tentativa de topless é muito mal recebida. Pois é, vai entender...



Segunda-feira, Novembro 02, 2009

shirley horn


Existem os writer's writers, escritores que os outros escritores admiram, como Gay Talese (para o jornalismo) e Borges (para a ficção). Ou actor's actors, como recentemente são Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Philip Seymour Hoffman. Existem os musician's musicians (sou casada com um), aqueles que são respeitados por seus pares e colegas de instrumento. Em matéria de cantoras, como singer's singer, acho que Shirley Horn é talvez a maior unanimidade que conheço. Meu CD Slow Music é dedicado a ela (e a Bill Evans e João Gilberto), mas não foi surpresa para mim quando vi que a mega-ultra-superstar Barbra Streisand tinha feito o mesmo em seu novo disco. E fez mais: regravou várias canções que nossa musa Shirley já eternizara anteriormente, e com a suprema ousadia de usar o mesmo arranjador, Johnny Mandel. Quem pode, pode, sem dúvida.

Divina (tão divina quanto Elizeth foi pra nós aqui no Brasil), La Horn não tem as firulas vocais de Ella Fitzgerald (que também adoro, quando está em seus momentos cancionistas; nos momentos de scat, acho um pouco excessiva), nem a extensão vocal de Sarah Vaughan (que às vezes é um fim em si mesma), nem a frieza de Carmen McRae ou as loucuras de Betty Carter - SH é emoção pura, conjugada a técnica perfeita. Ela é, aliás, uma falsa perfeita, como Elis também foi. E ainda toca aquele piano todo, e harmoniza as canções com propriedade absoluta. É senhora do tempo, dos silêncios, das pausas longuíssimas, mas tem um suingue infernal quando quer. A escolha de repertório é quase impecável. SH é tudo de bom.

(Estou falando dela no tempo presente, porque grandes músicos não morrem.)

No comecinho dos anos 1990, fomos colegas de gravadora, na americana Verve. Muitos anos depois, fui vê-la ao vivo pela primeira vez, quando veio ao Rio. Não era um bom momento. Ela já estava bastante doentinha, tivera um pé amputado, por complicações de diabetes, e não tocava mais piano, pois seu delicado trabalho de dinâmica dos pedais estava prejudicado com isso. Imagino sua aflição, ela que sempre fizera absoluta questão de ser a pianista de si mesma e sempre recusara as propostas para ser uma stand-up singer, ou seja, a cantora que se apresenta de pé no centro do palco, microfone na mão. O piano e ela eram uma unidade, assim como voz e violão têm sido para alguns de nós aqui na nossa MPB, a partir de João Gilberto. Sei perfeitamente, portanto, como ela se sentia quando disse que só gostava de cantar ouvindo os acordes que tinha imaginado, e por isso não podia dispensar o piano. Eu sinto exatamente a mesma coisa com relação ao meu violão.

Enfim, voltando aos anos 2000 e pouco, quando fui vê-la: era o famigerado Free Jazz Festival (que nossa filha mais nova, de humor especialmente ácido, tinha apelidado de "Jazz-Free Festival"). Os espetáculos estavam distribuídos por diversas tendas, uma para cada gênero, e nossa musa se apresentava no chamado 'club'. Só que bem ao lado estava a tenda do hip-hop, e o tratamento acústico não era dos melhores, para dizer o mínimo. O concerto de Shirley, com suas pausas e silêncios, seria enormemente prejudicado pela barulheira ao lado, fazendo com que ela parasse o show na metade, por não conseguir seguir em frente com sua música. 

Foi um dos momentos em que tive mais vergonha de nossa brasileiríssima falta de cuidado, embora esse tipo de coisa até possa acontecer em outros locais também. Mas a diva estava lá, em cadeira de rodas, pronta para oferecer o seu melhor, embora apenas com a voz - o piano estava ocupado por outro músico, já que ela não podia mais tocar. Mas isso já era muito. Não custava nada o pessoal da organização ter programado horários diferentes para os diferentes espetáculos. Teria sido mais respeitoso.

Fui falar com ela no camarim, depois do show. Ela se lembrava de mim e foi gentil, dentro do possível naquelas circunstancias. Sua produtora, Sheila Mathis, uma boa amiga dos velhos tempos da Verve, me ajudou a sair dali antes que sua patroa desse uma solene bronca nos organizadores do festival. Seria a última chance para nós, seus fãs, de tê-la ao vivo, pois a Divina iria falecer logo em seguida.

Tudo isso me veio à lembrança enquanto ouvia Barbra cantar 'Here's To Life', a canção-assinatura de Shirley, com um arranjo do Johnny, quase igual-que-nem o original. Corajosa, essa dona Streisand. 

PS- Perdão, tomei como certo que todo o mundo que lê meu blog tenha lido meu livro também. Nele há um capítulo chamado 'Perfeição' onde eu, meio de brincadeira, divido os criadores em perfeitos e imperfeitos. Cito a mim mesma aqui: "o imperfeito é possuído pela paixão, o perfeito a possui". Então, por exemplo, Pelé é perfeito e Garrincha imperfeito, Renoir é perfeito e Van Gogh imperfeito, e por aí vai. Todos geniais, de qualquer modo. Os falsos perfeitos parecem perfeitos, mas não são: já chegaram a tal domínio da sua arte que podem deixar a emoção fluir sem risco. É o caso de Shirley... e de Elis.


Quarta-feira, Outubro 28, 2009

cidade mutante

Acho que nenhuma cidade do planeta tem sido tão mutante quanto a nossa. Se pensarmos que a foto acima é da virada do século 19 para o 20, no tempo em que as tias baianas chegavam com seus balangandans e seus costumes, quando o terreiro de Tia Ciata se tornava o berço do samba... É inacreditável. Foi outro dia mesmo! Cem anos para uma cidade é muito pouco.

Também é inacreditável imaginar que esta era a paisagem da Lagoa Rodrigo de Freitas, na altura da Catacumba, há menos de 50 anos atrás. As casas ficavam plantadas à beira d'água, quase não havia prédios e as águas eram limpas. Em compensação, vejam abaixo as favelas da Catacumba (hoje reflorestada) e da Praia do Pinto (onde atualmente fica o condomínio conhecido como Selva de Pedra). Estas foram erradicadas a tempo, salvando as áreas do Leblon e da Fonte da Saudade de se tornarem uma imensa Rocinha (que no final dos anos 60 tinha em torno de 30 barracos, e hoje é a maior favela da América Latina).


Já a próxima foto (abaixo) mostra uma Ipanema do tempo em que minha avó dispensou a compra de uma casa no Jardim de Alá, por achar que aquele areal não iria dar em nada. Anos depois minha mãe foi morar lá com meus irmãos ainda pequenos, antes do meu nascimento (quando nasci, nossa família já havia se mudado para o Posto Seis, na divisa entre Copacabana e Ipanema). 

É uma cidade mutante e movente, sem dúvida. Algumas mudanças vi com meus próprios olhos, como a favelização acelerada, o crescimento absurdo da Barra (com o descumprimento do Plano Lúcio Costa), a criação do belo Aterro do Flamengo, a decadência da outrora aprazível Zona Norte, a copacabanização de Ipanema e a transformação de Copacabana numa imensa Madureira-sur-mer... Tudo isso foi acontecendo em rapidez vertiginosa, e nós cariocas tivemos que ir nos acostumando, assim como nossos pais e avós tiveram que entender as mudanças feitas pelo prefeito Pereira Passos em sua época, como a destruição do Morro do Castelo para que se abrisse a futura avenida Rio Branco. 

Sabemos que muitas outras mudanças virão, principalmente agora, com o Rio sediando Copa do Mundo e Olimpíadas. Tudo bem, que venham e que sejam para melhor. Os últimos 15 dias foram infernais, é verdade, com a violência explodindo por todos os lados. Era de se esperar, de certa forma, a partir do momento em que algumas favelas foram pacificadas _ e não me venham dizer que não adianta pacificar duas ou três, num universo que chega a quase mil: adianta sim, tem um efeito simbólico que é exatamente o que está provocando essa reação brutal do outro lado. E pelo menos não existe no momento aquela sensação de desamparo que os governos do nosso passado recente nos faziam sentir. 

Não fui eleitora dos atuais governador e prefeito do Rio. Mas sei reconhecer quando um trabalho está apresentando algum resultado, por mais que falte quase tudo a fazer. Aqui em casa o som de tiros que nos chegava do morro Dona Marta, a um quilometro e meio de distancia, nunca mais foi ouvido. Imagino o alívio que deve estar sendo para quem mora lá, com o fim do toque de recolher imposto pelo tráfico e outras barras pesadas que tornavam a vida ali insuportável. Seria fantástico que isso se estendesse para outras comunidades, onde há tanta gente que batalha honestamente e cria suas famílias tendo que conviver lado a lado com a bandidagem.

Vamos torcer para que a cidade que é de todos os brasileiros possa sobreviver mais uma vez e dar a volta por cima. E que haja ajuda de instancias superiores, principalmente do governo federal. O Brasil precisa merecer o Rio.


Quarta-feira, Outubro 21, 2009

meus discos, meus livros

Nossa coleção de vinis é preciosa. Para nós, pelo menos. Temos coisas que guardamos desde a adolescencia, LPs de jazz, bossa-nova (principalmente), música latinoamericana, européia, clássicos, alguns inclusive  bastante raros. Sabemos que existe por aí um mercado onde alguns desses exemplares valem muito dinheiro. Ainda assim, continuamos guardando, sentimentalmente, esses discos que nos fizeram a cabeça, e cujo som é tão mais quente e mais vivo do que os CDs das mesmas gravações que temos aqui em casa. São para nós itens insubstituíveis, entre os nossos modestos bens culturais.

O cara veio aqui em casa vender umas roupas. Por que deixá-lo entrar? Porque ele já me vendera algumas coisas trazidas da França há muitos anos atrás, num tempo em que eu ainda viajava pouco e as importações no Brasil eram bastante raras. Estou falando dos jurássicos anos 80. Além do mais, ele voltara recomendado por uma grande amiga minha, também cantora, a quem ele vendera algumas coisas bacanas. Eu estava de bobeira em casa com minha filha mais nova, e ela também se interessou. OK, então vamos ver o que o fulano trouxe.

Ele tinha duas enormes sacolas cheias de roupas, despejou tudo na sala e fomos vendo o que nos interessava - não era tanta coisa assim, mas não quisemos fazê-lo perder a viagem e fomos lá dentro experimentar o que ele nos oferecia. Ele ficou na sala, admirando nossa coleção de vinis.

"Ainda existem discos desses?" perguntou ele. Sim, claro, respondemos, tem até gente que compra, e quanto mais difíceis de encontrar, mais caros.

Santa ingenuidade. Dias depois, procurando um LP que queria ouvir, Tutty deu por falta de vários, justamente alguns dos mais raros da coleção. Quem foi, quem não foi, a imagem das sacolas no chão e a lembrança da pergunta aparentemente desinteressada do nosso visitante me esclareceu logo o que tinha acontecido. Mas para não julgar mal um inocente, liguei para a amiga que o havia indicado. "Você conhece bem esse cara?" - perguntei. E ela: "mais ou menos... ele é conhecido do meu irmão, lá do Clube dos Colecionadores de Vinil".

Bingo!

Conseguimos o endereço da figura e Tutty foi até lá, acompanhado de um de nossos genros (eu não sabia o que ele iria encontrar, e achamos legal que houvesse uma testemunha). Tocaram a campainha, o cidadão abriu, e as paredes forradas de LPs na sala não deixavam dúvida, era ele mesmo. Depois de algumas explicações preliminares (e negativas veementes), Tutty encontrou o que procurava. O cara ainda insistia em dizer que era tudo dele, mas os LPs, já prontos, catalogados e encapados em plástico, traziam a inequívoca anotação, feita à mão pelo dono, então adolescente: "Tutty Moreno 1965". Faltavam dois, que ele já revendera ou coisa pior. O espertinho pediu 24 horas para mandar devolvê-los em nossa casa, e foi realmente o que aconteceu, embora um deles tenha voltado sem a inscrição. Ele certamente teve de conseguir um equivalente em algum lugar, pois o nosso exemplar já deveria estar longe àquela altura, no Japão ou em Londres.

Nossas filhas, indignadas, achavam que deveríamos suspender o cheque pré-datado que fora dado como parte do pagamento pelas roupas. Tutty se recusou: "ele é desonesto, mas nós não somos". O cheque foi devidamente honrado. E as roupitchas, dadas para caridade.

Nossos vinis continuam aqui, mas, hoje em dia, fora de acesso a qualquer visitante. Essa foi a única moral da história, pois em princípio, continuaremos confiando nas boas intenções do ser humano.

PS- esta história aconteceu já tem uns seis ou sete anos...


Sexta-feira, Outubro 16, 2009

adrenalina!

Música é um negócio engraçado: você recebe do parceiro (ou compõe você mesmo/a) uma melodia, por exemplo, e vai ouvindo os sons que ela sugere. Sempre soa parecido com algumas sílabas, que vão formando palavras, e você começa obsessivamente a repetir a música, até que as palavras juntas comecem a fazer algum sentido. E vai inventando uma história em cima daquilo. E descascando as palavras, até que saia tudo o que não for preciso pra contar a história dentro da melodia proposta. É mais ou menos assim que funciona, pelo menos comigo.

Meu parceiro Francis Hime estava com urgencia de uma letra para um samba recente, que ele tinha composto para incluir em seu novíssimo CD. Mandou para mim a música, e o que saiu foi a letra que aqui segue, inspirada numa personagem real. Trata-se de uma moça (que não conheço pessoalmente, é bom que se diga), geógrafa e passista (profissional! ela se apresenta como "passista-show da Mangueira"), e que mantém um interessante blog sobre as raízes do samba, meio-ambiente e urbanismo. Ela escreve bem, e foge do estereótipo da rainha de bateria que só pensa em ficar saradona para aparecer na avenida. O que me fez pensar em quantas moças bacanas, multitalentosas no samba e na vida, devem existir por aí. E o povo só vê o que é visível e óbvio.

Sem pedir licença, e esperando que ela não se incomode por ter virado tema de um samba, fui em frente -  e assim ficou (e é a faixa de abertura do novo CD do Francis, 'Tempo das Palavras'):

                    ADRENALINA (Francis Hime/ Joyce Moreno) 

Samba menina

Que adrenalina (bis) 

Olha só como samba essa menina

Põe cada vez mais adrenalina

Na alma do povo que vai lá

Que palpita

Se ela faz fita

A galera agita, grita

Vai pingando colírio nas retinas

De todos os homens do lugar

Olha lá

É Iemanjá, é Iansã

Sambando até de manhã, veja

Mas debaixo de toda essa beleza

Na alma da deusa, o que será

Que ela sonha?

Ela sonha o futuro das cidades

O meio ambiente, as liberdades

A utopia de Platão

Vai menina

Nessa rotina 

Sob a purpurina, rima 

O brasão de Descartes no estandarte

Engenho com arte e sedução

Quem vem lá

É Iemanjá, é Iansã

Sambando até de manhã, veja

Mas debaixo de toda essa beleza

Na alma da deusa, o que será

Que ela sonha?

Ela sonha o planeta, essa menina

Enquanto a cidade se ilumina

Enquanto pro povo tudo é…

Adrenalina

Samba, menina

Que adrenalina

Samba menina… 


Domingo, Outubro 11, 2009

a vida segue

Seguimos neste curto período de não-trabalho, eu um tanto ou quanto entediada com o mundo, já que não estamos fazendo música e é a música que me move, é o que move a nós aqui em casa. Chegamos do Japão há apenas uma semana, mas parece que foi há um século atrás.  As turnês da Europa e do Canadá, então, parece que aconteceram há milênios. O mundo para de rodar quando não estamos criando, tocando, inventando alguma coisa. 

Resta a invenção das crianças, que é sempre coisa boa. Nenhuma delas tem mais o tamanho que tinha quando foram feitas essas fotos, mas foi bom enquanto durou. Daqui a pouco vou começar a sentir aquela saudade que sinto de minhas filhas _ pessoas que não mais irei rever, não como elas eram na infancia. As pessoas que vejo hoje são outras, diferentes, com suas vidas, suas alegrias e tristezas, seus problemas, seus horizontes, seus sonhos. Assim será também com os filhos delas.

Houve três que chegaram praticamente ao mesmo tempo, de três diferentes mães, e foi uma loucura quando se juntaram aqui em casa. Eram até agora os menores, mas vem mais um a caminho e agora serão seis ao todo.

Voilà! A vida tem sempre razão. Os projetos futuros já começam a se desenhar lá na frente, em 2010, e incluem o que talvez seja o disco mais maluco que já fiz na vida. Vamos ver se tudo se confirma e a maluquice acontece mesmo. Como dizia minha mãe: "Joyce, você não tem mais o que inventar?" Pois é. Essa é uma gravidez que nunca termina.

PS- "Hoje em minha casa tem criança, cachorro e televisão/ Tem gente aqui chegando de viagem/ Também tem gente que não/ Nem por isso a música me larga/ Triste, sem inspiração/ O ouvido de dentro é o que importa/ Então eu fiz essa canção..."

"Na Casa do Villa" - CD 'Gafieira Moderna', 2001.


Quarta-feira, Outubro 07, 2009

voar é preciso?

Somos animais terrestres. Saímos da água, nos criamos na terra, e agora inventamos de voar. Vinicius dizia que uma geringonça mais pesada que o ar e inventada por um brasileiro não podia dar certo. Mas deu. E agora somos também animais voadores, embora carregados pelas máquinas.

Eu detestaria ter de entrar num navio a cada vez que tivesse que sair do Brasil. Digo isso apesar de ser neta de marinheiro _ meu avô, que não cheguei a conhecer, era comandante de navio mercante, e morreu afundado por um submarino italiano, em 1942. Várias vezes, em suas longas viagens, ele levava a família junto, minha mãe ainda criança e seus irmãos também pequenos. Ninguém reclamava de passar semanas em alto-mar, com direito a uma ou outra tempestade de vez em quando. Naquele tempo era assim que se viajava nas grandes distancias. Avião era um luxo para poucos.

Ainda assim, eu dizia, apesar de ser neta de marinheiro, jamais viajei de navio _ cruzeiros, então, nem pensar. Imagino que deva ser um tédio, e não gosto de estar em lugares de onde eu não possa sair quando quiser. No entanto, frequentemente sou obrigada a passar horas sem fim dentro da cabine de um avião. Voar está ficando cada vez mais difícil. E viagens como essa de agora, que nos levou e trouxe de e para o Japão, são as piores.

Deve haver alguma questão ligada às mudanças climáticas, mas nunca vi tanta turbulencia acontecendo no ar. Não faz muito tempo, quando a aeronave atingia a chamada "altitude de cruzeiro", isso significava que os cintos podiam ser afrouxados, o serviço de bordo iria começar e o voo seguiria tranquilo. Não tem sido mais assim. Pode ser que tenhamos pegado um dia atípico, mas nossa volta do Japão foi tremendamente estressante, com turbulencia durante as primeiras 6 horas do trecho Tóquio/Atlanta, e mais turbulencia durante TODO _ eu disse TODO _ o trecho Atlanta/Rio (cerca de 10 horas). O serviço de bordo chegou a ser interrompido, em dado momento. Felizmente todos estavam calmos, mas eu não podia esquecer o que vira no voo de ida: os comissários fazendo um "gatilho" com pedaços de isopor na porta de saída, por onde estava passando ar. Em outros tempos, de menor crise financeira, nenhuma companhia aérea de respeito permitiria que um avião seu saísse do solo com um calço de isopor na porta. Mas foi o que aconteceu, e era a americana Delta Airlines.

Tenho amigos músicos que por muito menos desistiram das longas turnês e restringiram ao máximo esse tipo de viagem. Também conheço gente muito jovem que desenvolveu panico de aviões, e não voa nem morta. Acho que nós aqui em casa não poderemos nos dar esse luxo, por enquanto. Quem faz música criativa no Brasil está condenado a virar caixeiro-viajante da MPB _ "embaixador" seria mais chique, mas o Itamarati mudou muito: agora mesmo, a embaixada brasileira em Tóquio está promovendo um seminário sobre funk carioca, para, quem sabe, tentar reverter a primazia do samba e da bossa-nova no país. Portanto, caixeiros-viajantes é o que somos. 

O que resta é tentar programar as viagens, de forma a reduzir um pouco os deslocamentos e fazê-los menos traumáticos. É o que vamos tentar em 2010.


Terça-feira, Setembro 29, 2009

daqui

De lá não há lugar mais longe que aqui
Daqui não há lugar mais perto de si
Daqui, de lá 
De lá pra cá
De lá pra si 
De si pra lá

Esta letra curta define exatamente o que sentimos quando estamos aqui no Japão. Foi escrita por meu parceiro Rodolfo Stroeter em Osaka, e musicada por mim em seguida. 

Daqui não há lugar mais perto de si. A magnitude do jet-lag faz com que tudo tome proporções enormes. 

Mas a música sempre nos salva de quaisquer contratempos. Aqui vai um pequeno clip de nossa estréia domingo à noite, que está no website do Blue Note Tokyo. A gente se cansa, mas também se diverte.


Terça-feira, Setembro 22, 2009

minhas cidades

Tenho cidades minhas. São aquelas que conheço bem, ou pelo menos penso que conheço. Meus cantos favoritos, o hotel de sempre, o bairro, os restaurantes e alguns bons amigos. Hoje estou falando de Tóquio, para onde seguiremos amanhã (se bem que a foto acima é de Yokohama, cidade de que também gosto muitíssimo, mas sem esse pertencimento todo).

Minhas cidades são aquelas de que não posso me afastar por muito tempo, ou fico com síndrome de abstinencia. Amo Nova York e Paris, que são cidades óbvias, feitas para serem amadas. Nos anos 1970, amei Roma, depois esqueci um pouco este amor, devido às prolongadas ausencias. Em compensação, aprendi a amar Londres. Nós e a torcida do Fluminense amamos a Praia do Forte, na Bahia, claro. E por razões familiares, amo também São Paulo e Colônia, onde temos filhas e netos. 

(São Paulo não se entrega assim tão fácil, é um amor que precisa ser cultivado. Frequento SP desde pequena, pois minha mãe tinha um arranjo engraçado com a irmã dela: no verão, meus primos paulistas passavam as férias lá em casa, no Posto 6 (para os não-cariocas, explico: trata-se da divisa entre Copacabana e Ipanema), torrando sob o sol do espetacular e tranquilo Rio de Janeiro dos anos 50/60. Nas férias de julho, o arranjo entre as irmãs nos transferia para a casa de minha tia, no Brooklyn Novo, em São Paulo, onde o programa era congelar nos duríssimos invernos paulistas. Por sorte havia uma lareira na sala, onde podíamos nos aquecer. Mas o banho de chuveiro naquele frio era uma tortura, e à noite era dureza dormir nos quartos gelados. Cedo percebi que meus primos saíam ganhando com a troca... Hoje aprendi a amar Sampa, e é um dos meus lugares favoritos, para onde vou com prazer sempre que posso.)

Enfim, tudo isso para falar de Tóquio, cidade que adoro, e pela qual me apaixonei à primeiríssima vista. De tal forma que minha primeira ida ao Japão, em 1985, não me provocou sequer um jet-lag, tamanha a excitação da viagem. Hoje, depois de 24 anos de convivencia com a cidade, a paixão se acalmou, virou um amor tranquilo, mas é claro que temos nossos points prediletos _ Shinjuku, onde fica a melhor papelaria do mundo; Shibuya, onde ainda se encontra, firme e forte, o prédio de cinco andares da Tower Records, minha perdição, a cadeia japonesa sendo a única da rede, no mundo inteiro, que ainda não faliu; Harajuku, para bater perna pela Omotesando-dori e ver as modas; Takadanobaba, bairro afastado onde se esconde nosso restaurante preferido. E claro, Minami-Aoyama, onde fica nosso QG musical desde 1991, o Blue Note Tokyo. 

Depois dessa rápida visita, voltar para a mãe de todas as cidades, a minha, a Maravilhosa.


Pois afinal de contas, there's no place like home, como diria Dorothy. Minha alma ainda canta, apesar dos pesares.


Quinta-feira, Setembro 17, 2009

a onda que se ergueu no mar

Foi assim: o fotógrafo estava na Austrália e foi dar uma surfada na praia de Cape Dieu. E quem ele encontrou por lá surfando também? golfinhos em bando.

Aqui na baía de Guanabara eles ainda aparecem, não sei se ainda com a mesma frequencia com que apareciam quando a gente ia de barca pra Niterói e eles nos seguiam fazendo algumas acrobacias aquáticas, ou simplesmente nadando ao lado. Mas pegando onda, é a primeira vez que vejo.

Saudades de minhas meninas com suas pranchas de morey-boogie, nos anos 80, na praia do Recreio, perto da nossa casa de então. Elas foram tão ratinhas de praia quanto eu também fui, só que na minha época a gente pegava onda sem prancha mesmo. E ninguém falava em protetor solar nem em camada de ozônio.

(fotos: globo.com)


Terça-feira, Setembro 15, 2009

o que é fraqueza?

Leio diariamente nos jornais sobre o massacre midiático a que tem sido submetido Barack Obama, por quem tanto torcemos, antes, durante e depois da campanha presidencial americana. Ele é mulato (para os padrões brasileiros, claro; para os padrões americanos, é negro mesmo, conforme a política da 'gota única de sangue'). Ele é jovem, bonito, elegante, sai bem na foto. Ele é um grande orador. Ele é democrata. Ele fala mais de um idioma e tem raízes multiculturais. Tudo isso junto provoca a ira dos radicais de direita nos Estados Unidos, o que de início me fez temer pela vida dele. Apareceram logo os primeiros malucos armados, prontos para assassinar mais um presidente progressista, como tantas outras vezes na história do país. 

O FBI deve estar fazendo um trabalho extremamente competente em protegê-lo, pois agora começa a tentativa de assassinar a imagem de Obama e transformá-lo num novo Jimmy Carter, o presidente democrata que ganhou um Nobel da Paz, mas não conseguiu se reeleger. "Ele é fraco, ele é confuso, ele é inexperiente", são os argumentos dos que não aguentavam ver um presidente desses, com 70% de aprovação nas pesquisas. Que já despencaram para quarenta e poucos, graças à campanha insidiosa que tem sido feita. A luta pela mudança no sistema de saúde, que atinge tantos interesses; a condução da política internacional, mais baseada na diplomacia do que no enfrentamento; o pisar-em-ovos na política econômica, numa economia baqueada pela crise... são questões que servem como luva às intenções malsãs dos que preferem que fique tudo como está. Até o tenebroso Bin Laden, que não é bobo,  já pegou carona nesse bonde _ pois radical é tudo igual _ e usou a pecha de fraco que tentam pôr em Obama para incentivar seus jihadistas da Al-Qaeda: "podem atacar, que ele é um banana". 

O que é fraqueza? É não invadir o país dos outros sem motivo justificável? É tentar oferecer um sistema de saúde mais justo, que possa ser usufruído por todos, como acontece na maioria dos países da Europa? É lidar cautelosamente com a herança maldita dos anos Bush? É preferir o diálogo e escutar o que diz a outra parte? É não dar o murro na mesa e reconhecer "the otherness of others"? Se for assim, vamos todos ser fracos, com muita honra _ e em paz com nossas consciências.


Terça-feira, Setembro 08, 2009

na idade da razão - aniversários

Antigamente as festas de aniversário de criança eram simplérrimas e divertidas. A gente juntava uns dois ou três amigos(as) para soprar bolas, fazer brigadeiro e cachorro-quente e pronto. Hoje as festas infantis são produzidíssimas, caríssimas, organizadas por empresas especializadas e com a presença infalível dos 'animadores'. Nas festinhas antigas, a animação vinha das crianças mesmo, era só os pais chegarem no local e deixar que elas mesmas inventassem suas brincadeiras. A gente ficava lá só olhando, batendo papo com outros pais e mães e comendo o brigadeiro cuspido por nossos filhos e filhas. Todo mundo se divertia à beça.

Hoje, ai de nós, as crianças querem as festas superproduzidas, apoteóticas, bem diferentes, por exemplo, da festinha que aparece na foto acima, quando minha filha Clarinha (na foto, com a irmã, Aninha) fez 11 anos e organizamos um piquenique no Parque da Cidade _ local hoje infrequentável, devido à violencia e aos assaltos constantes na área.

Agora é a vez da geração seguinte.

Ele vai fazer sete, que, dizem várias tradições, é quando começa o livre-arbítrio. Chegou pra nós num momento especialmente conturbado, exatamente uma semana depois da partida de minha mãe. O que foi uma prova, pelo menos pra mim, de que a vida tem sempre razão.

A mãe dele acha que na festa de 16 anos, ou seja, em 2018, ela terá de mandar fazer um convite igual ao que está acima. Vamos ver. O tempo dirá. Festa em Marte, eu diria, talvez só quando ele estiver completando trinta, e aí ele mesmo convida. Por enquanto ele só quer saber de futebol, judô e computador. E dos primeiros livros, agora que se alfabetizou e descobriu um novo mundo. Ele mesmo responde aos e-mails. Crianças modernas fazem tudo isso, claro. Difícil é fazer com que eles topem uma festa mais simplezinha... Parece que este ano conseguimos.


Quinta-feira, Setembro 03, 2009

rio de janeiro forever

Não é sempre que os cariocas conseguem ir à praia, a não ser os que moram em frente (ou quase, como era o caso de minha mãe) ou os que têm tempo de sobra, o que não é nosso caso. Hoje conseguimos. O final de inverno surpreendeu e tem tido dias lindíssimos _ o mar com águas límpidas, a praia calma, naquele horário em que só tem criança e idoso. Ipanema hoje estava tinindo. Como amamos essa cidade!

(na verdade, foi a primavera que chegou mais cedo: aqui em casa, gerânios e orquídeas já deram o ar da graça....)

Pesquisa da revista Forbes coloca o Rio de Janeiro como a cidade mais feliz do mundo. Segundo o organizador da pesquisa, isso reflete a percepção das pessoas, não a realidade, obviamente. Falta muito para o Rio ser uma cidade mais justa e feliz de verdade. Mas a impressão geral é a que conta, e a lista mundial ficou assim:

Veja abaixo o ranking da Forbes:

 

1º - Rio de Janeiro (Brasil) 

2º - Sydney (Austrália) 

3º - Barcelona (Espanha) 

4º - Amsterdã (Holanda) 

5º - Melbourne (Austrália) 

6º - Madri (Espanha) 

7º - São Francisco (EUA) 

8º - Roma (Itália) 

9º - Paris (França) 

10º - Buenos Aires (Argentina)

 

 

Vejam que bonita essa vista da Lagoa, nosso bairro, nosso lugar. Dá pra ser feliz? Dá. É melhor ser alegre que ser triste.


Domingo, Agosto 30, 2009

notícia triste


E foi-se mais um grande músico, Ion Muniz. Brilhante sax-flautista, que conheci aos 18 anos, já tocando tudo; depois estivemos juntos no México, como integrantes do grupo de Luiz Eça, Sagrada Família. Mais adiante o reencontrei em NY em 1977, e posteriormente, já no Brasil, ele participou de várias gravações minhas. Os caminhos da vida nos levaram para lados bem diferentes. Mas foi um dos maiores músicos que já vi tocar, quando esteve na sua melhor fase.

Paris, 1989, em casa de uma amiga: fazíamos uma audição do meu CD do momento, 'Negro Demais No Coração'. A faixa era 'Canto de Ossanha'. Um jornalista presente veio me perguntar de quem era o belíssimo solo de tenor: "essa liberdade e inventividade, eu só tinha visto antes em John Coltrane", disse ele. Era um solo do Ion.

"A vida toda que poderia ter sido e que não foi" (Manuel Bandeira)

PS- finalmente, uma foto recente do Ion.