Domingo, Novembro 08, 2009

saias, pernas e afins

Não era minha intenção, mas não posso deixar de comentar o impressionante desfecho do caso da moça de São Bernardo do Campo, que foi às aulas na Uni(tali)ban de mini-vestido rosa shocking, e por isso sofreu constrangimentos, ameaças de estupro coletivo, xingamentos diversos e por pouco não foi devidamente apedrejada pelos gentis colegas, cerca de 700 rapazes nervosos com a presença de um par de pernas de fora no sacrossanto recinto da universidade. Foi salva pela PM, que providencialmente se apresentou para resgatá-la. 

Como carioca da gema, e ainda por cima da geração anos 60/70, não consigo entender qual a dificuldade destes jovens com a visão de partes de um corpo feminino. Certamente a mesma lá do Afeganistão e de outras localidades igualmente pudicas. Considero, com toda certeza, que a estética da moda feminina atual é de extremo mau gosto. As meninas brasileiras e americanas do norte das novas gerações têm optado por modelitos mais para o vulgar, na minha modesta opinião - nos Estados Unidos, as estrelas pop usam cada um de arrepiar, e por aqui o que as meninas têm como modelo são as BBBs da vida. Isso não me impede de considerar que cada pessoa veste o que lhe der na telha, e ninguém tem nada com isso.

Hoje leio nos jornais que a universidade finalmente tomou uma providencia: expulsou a moça, por "falta de decoro". Os 700 marmanjos que pretendiam agredí-la foram poupados. Sugiro às alunas desta nobre instituição que preparem as burcas para o próximo ano letivo.


Segunda-feira, Novembro 02, 2009

shirley horn


Existem os writer's writers, escritores que os outros escritores admiram, como Gay Talese (para o jornalismo) e Borges (para a ficção). Ou actor's actors, como recentemente são Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Philip Seymour Hoffman. Existem os musician's musicians (sou casada com um), aqueles que são respeitados por seus pares e colegas de instrumento. Em matéria de cantoras, como singer's singer, acho que Shirley Horn é talvez a maior unanimidade que conheço. Meu CD Slow Music é dedicado a ela (e a Bill Evans e João Gilberto), mas não foi surpresa para mim quando vi que a mega-ultra-superstar Barbra Streisand tinha feito o mesmo em seu novo disco. E fez mais: regravou várias canções que nossa musa Shirley já eternizara anteriormente, e com a suprema ousadia de usar o mesmo arranjador, Johnny Mandel. Quem pode, pode, sem dúvida.

Divina (tão divina quanto Elizeth foi pra nós aqui no Brasil), La Horn não tem as firulas vocais de Ella Fitzgerald (que também adoro, quando está em seus momentos cancionistas; nos momentos de scat, acho um pouco excessiva), nem a extensão vocal de Sarah Vaughan (que às vezes é um fim em si mesma), nem a frieza de Carmen McRae ou as loucuras de Betty Carter - SH é emoção pura, conjugada a técnica perfeita. Ela é, aliás, uma falsa perfeita, como Elis também foi. E ainda toca aquele piano todo, e harmoniza as canções com propriedade absoluta. É senhora do tempo, dos silêncios, das pausas longuíssimas, mas tem um suingue infernal quando quer. A escolha de repertório é quase impecável. SH é tudo de bom.

(Estou falando dela no tempo presente, porque grandes músicos não morrem.)

No comecinho dos anos 1990, fomos colegas de gravadora, na americana Verve. Muitos anos depois, fui vê-la ao vivo pela primeira vez, quando veio ao Rio. Não era um bom momento. Ela já estava bastante doentinha, tivera um pé amputado, por complicações de diabetes, e não tocava mais piano, pois seu delicado trabalho de dinâmica dos pedais estava prejudicado com isso. Imagino sua aflição, ela que sempre fizera absoluta questão de ser a pianista de si mesma e sempre recusara as propostas para ser uma stand-up singer, ou seja, a cantora que se apresenta de pé no centro do palco, microfone na mão. O piano e ela eram uma unidade, assim como voz e violão têm sido para alguns de nós aqui na nossa MPB, a partir de João Gilberto. Sei perfeitamente, portanto, como ela se sentia quando disse que só gostava de cantar ouvindo os acordes que tinha imaginado, e por isso não podia dispensar o piano. Eu sinto exatamente a mesma coisa com relação ao meu violão.

Enfim, voltando aos anos 2000 e pouco, quando fui vê-la: era o famigerado Free Jazz Festival (que nossa filha mais nova, de humor especialmente ácido, tinha apelidado de "Jazz-Free Festival"). Os espetáculos estavam distribuídos por diversas tendas, uma para cada gênero, e nossa musa se apresentava no chamado 'club'. Só que bem ao lado estava a tenda do hip-hop, e o tratamento acústico não era dos melhores, para dizer o mínimo. O concerto de Shirley, com suas pausas e silêncios, seria enormemente prejudicado pela barulheira ao lado, fazendo com que ela parasse o show na metade, por não conseguir seguir em frente com sua música. 

Foi um dos momentos em que tive mais vergonha de nossa brasileiríssima falta de cuidado, embora esse tipo de coisa até possa acontecer em outros locais também. Mas a diva estava lá, em cadeira de rodas, pronta para oferecer o seu melhor, embora apenas com a voz - o piano estava ocupado por outro músico, já que ela não podia mais tocar. Mas isso já era muito. Não custava nada o pessoal da organização ter programado horários diferentes para os diferentes espetáculos. Teria sido mais respeitoso.

Fui falar com ela no camarim, depois do show. Ela se lembrava de mim e foi gentil, dentro do possível naquelas circunstancias. Sua produtora, Sheila Mathis, uma boa amiga dos velhos tempos da Verve, me ajudou a sair dali antes que sua patroa desse uma solene bronca nos organizadores do festival. Seria a última chance para nós, seus fãs, de tê-la ao vivo, pois a Divina iria falecer logo em seguida.

Tudo isso me veio à lembrança enquanto ouvia Barbra cantar 'Here's To Life', a canção-assinatura de Shirley, com um arranjo do Johnny, quase igual-que-nem o original. Corajosa, essa dona Streisand. 

PS- Perdão, tomei como certo que todo o mundo que lê meu blog tenha lido meu livro também. Nele há um capítulo chamado 'Perfeição' onde eu, meio de brincadeira, divido os criadores em perfeitos e imperfeitos. Cito a mim mesma aqui: "o imperfeito é possuído pela paixão, o perfeito a possui". Então, por exemplo, Pelé é perfeito e Garrincha imperfeito, Renoir é perfeito e Van Gogh imperfeito, e por aí vai. Todos geniais, de qualquer modo. Os falsos perfeitos parecem perfeitos, mas não são: já chegaram a tal domínio da sua arte que podem deixar a emoção fluir sem risco. É o caso de Shirley... e de Elis.


Quarta-feira, Outubro 28, 2009

cidade mutante

Acho que nenhuma cidade do planeta tem sido tão mutante quanto a nossa. Se pensarmos que a foto acima é da virada do século 19 para o 20, no tempo em que as tias baianas chegavam com seus balangandans e seus costumes, quando o terreiro de Tia Ciata se tornava o berço do samba... É inacreditável. Foi outro dia mesmo! Cem anos para uma cidade é muito pouco.

Também é inacreditável imaginar que esta era a paisagem da Lagoa Rodrigo de Freitas, na altura da Catacumba, há menos de 50 anos atrás. As casas ficavam plantadas à beira d'água, quase não havia prédios e as águas eram limpas. Em compensação, vejam abaixo as favelas da Catacumba (hoje reflorestada) e da Praia do Pinto (onde atualmente fica o condomínio conhecido como Selva de Pedra). Estas foram erradicadas a tempo, salvando as áreas do Leblon e da Fonte da Saudade de se tornarem uma imensa Rocinha (que no final dos anos 60 tinha em torno de 30 barracos, e hoje é a maior favela da América Latina).


Já a próxima foto (abaixo) mostra uma Ipanema do tempo em que minha avó dispensou a compra de uma casa no Jardim de Alá, por achar que aquele areal não iria dar em nada. Anos depois minha mãe foi morar lá com meus irmãos ainda pequenos, antes do meu nascimento (quando nasci, nossa família já havia se mudado para o Posto Seis, na divisa entre Copacabana e Ipanema). 

É uma cidade mutante e movente, sem dúvida. Algumas mudanças vi com meus próprios olhos, como a favelização acelerada, o crescimento absurdo da Barra (com o descumprimento do Plano Lúcio Costa), a criação do belo Aterro do Flamengo, a decadência da outrora aprazível Zona Norte, a copacabanização de Ipanema e a transformação de Copacabana numa imensa Madureira-sur-mer... Tudo isso foi acontecendo em rapidez vertiginosa, e nós cariocas tivemos que ir nos acostumando, assim como nossos pais e avós tiveram que entender as mudanças feitas pelo prefeito Pereira Passos em sua época, como a destruição do Morro do Castelo para que se abrisse a futura avenida Rio Branco. 

Sabemos que muitas outras mudanças virão, principalmente agora, com o Rio sediando Copa do Mundo e Olimpíadas. Tudo bem, que venham e que sejam para melhor. Os últimos 15 dias foram infernais, é verdade, com a violência explodindo por todos os lados. Era de se esperar, de certa forma, a partir do momento em que algumas favelas foram pacificadas _ e não me venham dizer que não adianta pacificar duas ou três, num universo que chega a quase mil: adianta sim, tem um efeito simbólico que é exatamente o que está provocando essa reação brutal do outro lado. E pelo menos não existe no momento aquela sensação de desamparo que os governos do nosso passado recente nos faziam sentir. 

Não fui eleitora dos atuais governador e prefeito do Rio. Mas sei reconhecer quando um trabalho está apresentando algum resultado, por mais que falte quase tudo a fazer. Aqui em casa o som de tiros que nos chegava do morro Dona Marta, a um quilometro e meio de distancia, nunca mais foi ouvido. Imagino o alívio que deve estar sendo para quem mora lá, com o fim do toque de recolher imposto pelo tráfico e outras barras pesadas que tornavam a vida ali insuportável. Seria fantástico que isso se estendesse para outras comunidades, onde há tanta gente que batalha honestamente e cria suas famílias tendo que conviver lado a lado com a bandidagem.

Vamos torcer para que a cidade que é de todos os brasileiros possa sobreviver mais uma vez e dar a volta por cima. E que haja ajuda de instancias superiores, principalmente do governo federal. O Brasil precisa merecer o Rio.


Quarta-feira, Outubro 21, 2009

meus discos, meus livros

Nossa coleção de vinis é preciosa. Para nós, pelo menos. Temos coisas que guardamos desde a adolescencia, LPs de jazz, bossa-nova (principalmente), música latinoamericana, européia, clássicos, alguns inclusive  bastante raros. Sabemos que existe por aí um mercado onde alguns desses exemplares valem muito dinheiro. Ainda assim, continuamos guardando, sentimentalmente, esses discos que nos fizeram a cabeça, e cujo som é tão mais quente e mais vivo do que os CDs das mesmas gravações que temos aqui em casa. São para nós itens insubstituíveis, entre os nossos modestos bens culturais.

O cara veio aqui em casa vender umas roupas. Por que deixá-lo entrar? Porque ele já me vendera algumas coisas trazidas da França há muitos anos atrás, num tempo em que eu ainda viajava pouco e as importações no Brasil eram bastante raras. Estou falando dos jurássicos anos 80. Além do mais, ele voltara recomendado por uma grande amiga minha, também cantora, a quem ele vendera algumas coisas bacanas. Eu estava de bobeira em casa com minha filha mais nova, e ela também se interessou. OK, então vamos ver o que o fulano trouxe.

Ele tinha duas enormes sacolas cheias de roupas, despejou tudo na sala e fomos vendo o que nos interessava - não era tanta coisa assim, mas não quisemos fazê-lo perder a viagem e fomos lá dentro experimentar o que ele nos oferecia. Ele ficou na sala, admirando nossa coleção de vinis.

"Ainda existem discos desses?" perguntou ele. Sim, claro, respondemos, tem até gente que compra, e quanto mais difíceis de encontrar, mais caros.

Santa ingenuidade. Dias depois, procurando um LP que queria ouvir, Tutty deu por falta de vários, justamente alguns dos mais raros da coleção. Quem foi, quem não foi, a imagem das sacolas no chão e a lembrança da pergunta aparentemente desinteressada do nosso visitante me esclareceu logo o que tinha acontecido. Mas para não julgar mal um inocente, liguei para a amiga que o havia indicado. "Você conhece bem esse cara?" - perguntei. E ela: "mais ou menos... ele é conhecido do meu irmão, lá do Clube dos Colecionadores de Vinil".

Bingo!

Conseguimos o endereço da figura e Tutty foi até lá, acompanhado de um de nossos genros (eu não sabia o que ele iria encontrar, e achamos legal que houvesse uma testemunha). Tocaram a campainha, o cidadão abriu, e as paredes forradas de LPs na sala não deixavam dúvida, era ele mesmo. Depois de algumas explicações preliminares (e negativas veementes), Tutty encontrou o que procurava. O cara ainda insistia em dizer que era tudo dele, mas os LPs, já prontos, catalogados e encapados em plástico, traziam a inequívoca anotação, feita à mão pelo dono, então adolescente: "Tutty Moreno 1965". Faltavam dois, que ele já revendera ou coisa pior. O espertinho pediu 24 horas para mandar devolvê-los em nossa casa, e foi realmente o que aconteceu, embora um deles tenha voltado sem a inscrição. Ele certamente teve de conseguir um equivalente em algum lugar, pois o nosso exemplar já deveria estar longe àquela altura, no Japão ou em Londres.

Nossas filhas, indignadas, achavam que deveríamos suspender o cheque pré-datado que fora dado como parte do pagamento pelas roupas. Tutty se recusou: "ele é desonesto, mas nós não somos". O cheque foi devidamente honrado. E as roupitchas, dadas para caridade.

Nossos vinis continuam aqui, mas, hoje em dia, fora de acesso a qualquer visitante. Essa foi a única moral da história, pois em princípio, continuaremos confiando nas boas intenções do ser humano.

PS- esta história aconteceu já tem uns seis ou sete anos...


Sexta-feira, Outubro 16, 2009

adrenalina!

Música é um negócio engraçado: você recebe do parceiro (ou compõe você mesmo/a) uma melodia, por exemplo, e vai ouvindo os sons que ela sugere. Sempre soa parecido com algumas sílabas, que vão formando palavras, e você começa obsessivamente a repetir a música, até que as palavras juntas comecem a fazer algum sentido. E vai inventando uma história em cima daquilo. E descascando as palavras, até que saia tudo o que não for preciso pra contar a história dentro da melodia proposta. É mais ou menos assim que funciona, pelo menos comigo.

Meu parceiro Francis Hime estava com urgencia de uma letra para um samba recente, que ele tinha composto para incluir em seu novíssimo CD. Mandou para mim a música, e o que saiu foi a letra que aqui segue, inspirada numa personagem real. Trata-se de uma moça (que não conheço pessoalmente, é bom que se diga), geógrafa e passista (profissional! ela se apresenta como "passista-show da Mangueira"), e que mantém um interessante blog sobre as raízes do samba, meio-ambiente e urbanismo. Ela escreve bem, e foge do estereótipo da rainha de bateria que só pensa em ficar saradona para aparecer na avenida. O que me fez pensar em quantas moças bacanas, multitalentosas no samba e na vida, devem existir por aí. E o povo só vê o que é visível e óbvio.

Sem pedir licença, e esperando que ela não se incomode por ter virado tema de um samba, fui em frente -  e assim ficou (e é a faixa de abertura do novo CD do Francis, 'Tempo das Palavras'):

                    ADRENALINA (Francis Hime/ Joyce Moreno) 

Samba menina

Que adrenalina (bis) 

Olha só como samba essa menina

Põe cada vez mais adrenalina

Na alma do povo que vai lá

Que palpita

Se ela faz fita

A galera agita, grita

Vai pingando colírio nas retinas

De todos os homens do lugar

Olha lá

É Iemanjá, é Iansã

Sambando até de manhã, veja

Mas debaixo de toda essa beleza

Na alma da deusa, o que será

Que ela sonha?

Ela sonha o futuro das cidades

O meio ambiente, as liberdades

A utopia de Platão

Vai menina

Nessa rotina 

Sob a purpurina, rima 

O brasão de Descartes no estandarte

Engenho com arte e sedução

Quem vem lá

É Iemanjá, é Iansã

Sambando até de manhã, veja

Mas debaixo de toda essa beleza

Na alma da deusa, o que será

Que ela sonha?

Ela sonha o planeta, essa menina

Enquanto a cidade se ilumina

Enquanto pro povo tudo é…

Adrenalina

Samba, menina

Que adrenalina

Samba menina… 


Domingo, Outubro 11, 2009

a vida segue

Seguimos neste curto período de não-trabalho, eu um tanto ou quanto entediada com o mundo, já que não estamos fazendo música e é a música que me move, é o que move a nós aqui em casa. Chegamos do Japão há apenas uma semana, mas parece que foi há um século atrás.  As turnês da Europa e do Canadá, então, parece que aconteceram há milênios. O mundo para de rodar quando não estamos criando, tocando, inventando alguma coisa. 

Resta a invenção das crianças, que é sempre coisa boa. Nenhuma delas tem mais o tamanho que tinha quando foram feitas essas fotos, mas foi bom enquanto durou. Daqui a pouco vou começar a sentir aquela saudade que sinto de minhas filhas _ pessoas que não mais irei rever, não como elas eram na infancia. As pessoas que vejo hoje são outras, diferentes, com suas vidas, suas alegrias e tristezas, seus problemas, seus horizontes, seus sonhos. Assim será também com os filhos delas.

Houve três que chegaram praticamente ao mesmo tempo, de três diferentes mães, e foi uma loucura quando se juntaram aqui em casa. Eram até agora os menores, mas vem mais um a caminho e agora serão seis ao todo.

Voilà! A vida tem sempre razão. Os projetos futuros já começam a se desenhar lá na frente, em 2010, e incluem o que talvez seja o disco mais maluco que já fiz na vida. Vamos ver se tudo se confirma e a maluquice acontece mesmo. Como dizia minha mãe: "Joyce, você não tem mais o que inventar?" Pois é. Essa é uma gravidez que nunca termina.

PS- "Hoje em minha casa tem criança, cachorro e televisão/ Tem gente aqui chegando de viagem/ Também tem gente que não/ Nem por isso a música me larga/ Triste, sem inspiração/ O ouvido de dentro é o que importa/ Então eu fiz essa canção..."

"Na Casa do Villa" - CD 'Gafieira Moderna', 2001.


Quarta-feira, Outubro 07, 2009

voar é preciso?

Somos animais terrestres. Saímos da água, nos criamos na terra, e agora inventamos de voar. Vinicius dizia que uma geringonça mais pesada que o ar e inventada por um brasileiro não podia dar certo. Mas deu. E agora somos também animais voadores, embora carregados pelas máquinas.

Eu detestaria ter de entrar num navio a cada vez que tivesse que sair do Brasil. Digo isso apesar de ser neta de marinheiro _ meu avô, que não cheguei a conhecer, era comandante de navio mercante, e morreu afundado por um submarino italiano, em 1942. Várias vezes, em suas longas viagens, ele levava a família junto, minha mãe ainda criança e seus irmãos também pequenos. Ninguém reclamava de passar semanas em alto-mar, com direito a uma ou outra tempestade de vez em quando. Naquele tempo era assim que se viajava nas grandes distancias. Avião era um luxo para poucos.

Ainda assim, eu dizia, apesar de ser neta de marinheiro, jamais viajei de navio _ cruzeiros, então, nem pensar. Imagino que deva ser um tédio, e não gosto de estar em lugares de onde eu não possa sair quando quiser. No entanto, frequentemente sou obrigada a passar horas sem fim dentro da cabine de um avião. Voar está ficando cada vez mais difícil. E viagens como essa de agora, que nos levou e trouxe de e para o Japão, são as piores.

Deve haver alguma questão ligada às mudanças climáticas, mas nunca vi tanta turbulencia acontecendo no ar. Não faz muito tempo, quando a aeronave atingia a chamada "velocidade de cruzeiro", isso significava que os cintos podiam ser afrouxados, o serviço de bordo iria começar e o voo seguiria tranquilo. Não tem sido mais assim. Pode ser que tenhamos pegado um dia atípico, mas nossa volta do Japão foi tremendamente estressante, com turbulencia durante as primeiras 6 horas do trecho Tóquio/Atlanta, e mais turbulencia durante TODO _ eu disse TODO _ o trecho Atlanta/Rio (cerca de 10 horas). O serviço de bordo chegou a ser interrompido, em dado momento. Felizmente todos estavam calmos, mas eu não podia esquecer o que vira no voo de ida: os comissários fazendo um "gatilho" com pedaços de isopor na porta de saída, por onde estava passando ar. Em outros tempos, de menor crise financeira, nenhuma companhia aérea de respeito permitiria que um avião seu saísse do solo com um calço de isopor na porta. Mas foi o que aconteceu, e era a americana Delta Airlines.

Tenho amigos músicos que por muito menos desistiram das longas turnês e restringiram ao máximo esse tipo de viagem. Também conheço gente muito jovem que desenvolveu panico de aviões, e não voa nem morta. Acho que nós aqui em casa não poderemos nos dar esse luxo, por enquanto. Quem faz música criativa no Brasil está condenado a virar caixeiro-viajante da MPB _ "embaixador" seria mais chique, mas o Itamarati mudou muito: agora mesmo, a embaixada brasileira em Tóquio está promovendo um seminário sobre funk carioca, para, quem sabe, tentar reverter a primazia do samba e da bossa-nova no país. Portanto, caixeiros-viajantes é o que somos. 

O que resta é tentar programar as viagens, de forma a reduzir um pouco os deslocamentos e fazê-los menos traumáticos. É o que vamos tentar em 2010.


Terça-feira, Setembro 29, 2009

daqui

De lá não há lugar mais longe que aqui
Daqui não há lugar mais perto de si
Daqui, de lá 
De lá pra cá
De lá pra si 
De si pra lá

Esta letra curta define exatamente o que sentimos quando estamos aqui no Japão. Foi escrita por meu parceiro Rodolfo Stroeter em Osaka, e musicada por mim em seguida. 

Daqui não há lugar mais perto de si. A magnitude do jet-lag faz com que tudo tome proporções enormes. 

Mas a música sempre nos salva de quaisquer contratempos. Aqui vai um pequeno clip de nossa estréia domingo à noite, que está no website do Blue Note Tokyo. A gente se cansa, mas também se diverte.


Terça-feira, Setembro 22, 2009

minhas cidades

Tenho cidades minhas. São aquelas que conheço bem, ou pelo menos penso que conheço. Meus cantos favoritos, o hotel de sempre, o bairro, os restaurantes e alguns bons amigos. Hoje estou falando de Tóquio, para onde seguiremos amanhã (se bem que a foto acima é de Yokohama, cidade de que também gosto muitíssimo, mas sem esse pertencimento todo).

Minhas cidades são aquelas de que não posso me afastar por muito tempo, ou fico com síndrome de abstinencia. Amo Nova York e Paris, que são cidades óbvias, feitas para serem amadas. Nos anos 1970, amei Roma, depois esqueci um pouco este amor, devido às prolongadas ausencias. Em compensação, aprendi a amar Londres. Nós e a torcida do Fluminense amamos a Praia do Forte, na Bahia, claro. E por razões familiares, amo também São Paulo e Colônia, onde temos filhas e netos. 

(São Paulo não se entrega assim tão fácil, é um amor que precisa ser cultivado. Frequento SP desde pequena, pois minha mãe tinha um arranjo engraçado com a irmã dela: no verão, meus primos paulistas passavam as férias lá em casa, no Posto 6 (para os não-cariocas, explico: trata-se da divisa entre Copacabana e Ipanema), torrando sob o sol do espetacular e tranquilo Rio de Janeiro dos anos 50/60. Nas férias de julho, o arranjo entre as irmãs nos transferia para a casa de minha tia, no Brooklyn Novo, em São Paulo, onde o programa era congelar nos duríssimos invernos paulistas. Por sorte havia uma lareira na sala, onde podíamos nos aquecer. Mas o banho de chuveiro naquele frio era uma tortura, e à noite era dureza dormir nos quartos gelados. Cedo percebi que meus primos saíam ganhando com a troca... Hoje aprendi a amar Sampa, e é um dos meus lugares favoritos, para onde vou com prazer sempre que posso.)

Enfim, tudo isso para falar de Tóquio, cidade que adoro, e pela qual me apaixonei à primeiríssima vista. De tal forma que minha primeira ida ao Japão, em 1985, não me provocou sequer um jet-lag, tamanha a excitação da viagem. Hoje, depois de 24 anos de convivencia com a cidade, a paixão se acalmou, virou um amor tranquilo, mas é claro que temos nossos points prediletos _ Shinjuku, onde fica a melhor papelaria do mundo; Shibuya, onde ainda se encontra, firme e forte, o prédio de cinco andares da Tower Records, minha perdição, a cadeia japonesa sendo a única da rede, no mundo inteiro, que ainda não faliu; Harajuku, para bater perna pela Omotesando-dori e ver as modas; Takadanobaba, bairro afastado onde se esconde nosso restaurante preferido. E claro, Minami-Aoyama, onde fica nosso QG musical desde 1991, o Blue Note Tokyo. 

Depois dessa rápida visita, voltar para a mãe de todas as cidades, a minha, a Maravilhosa.


Pois afinal de contas, there's no place like home, como diria Dorothy. Minha alma ainda canta, apesar dos pesares.


Quinta-feira, Setembro 17, 2009

a onda que se ergueu no mar

Foi assim: o fotógrafo estava na Austrália e foi dar uma surfada na praia de Cape Dieu. E quem ele encontrou por lá surfando também? golfinhos em bando.

Aqui na baía de Guanabara eles ainda aparecem, não sei se ainda com a mesma frequencia com que apareciam quando a gente ia de barca pra Niterói e eles nos seguiam fazendo algumas acrobacias aquáticas, ou simplesmente nadando ao lado. Mas pegando onda, é a primeira vez que vejo.

Saudades de minhas meninas com suas pranchas de morey-boogie, nos anos 80, na praia do Recreio, perto da nossa casa de então. Elas foram tão ratinhas de praia quanto eu também fui, só que na minha época a gente pegava onda sem prancha mesmo. E ninguém falava em protetor solar nem em camada de ozônio.

(fotos: globo.com)


Terça-feira, Setembro 15, 2009

o que é fraqueza?

Leio diariamente nos jornais sobre o massacre midiático a que tem sido submetido Barack Obama, por quem tanto torcemos, antes, durante e depois da campanha presidencial americana. Ele é mulato (para os padrões brasileiros, claro; para os padrões americanos, é negro mesmo, conforme a política da 'gota única de sangue'). Ele é jovem, bonito, elegante, sai bem na foto. Ele é um grande orador. Ele é democrata. Ele fala mais de um idioma e tem raízes multiculturais. Tudo isso junto provoca a ira dos radicais de direita nos Estados Unidos, o que de início me fez temer pela vida dele. Apareceram logo os primeiros malucos armados, prontos para assassinar mais um presidente progressista, como tantas outras vezes na história do país. 

O FBI deve estar fazendo um trabalho extremamente competente em protegê-lo, pois agora começa a tentativa de assassinar a imagem de Obama e transformá-lo num novo Jimmy Carter, o presidente democrata que ganhou um Nobel da Paz, mas não conseguiu se reeleger. "Ele é fraco, ele é confuso, ele é inexperiente", são os argumentos dos que não aguentavam ver um presidente desses, com 70% de aprovação nas pesquisas. Que já despencaram para quarenta e poucos, graças à campanha insidiosa que tem sido feita. A luta pela mudança no sistema de saúde, que atinge tantos interesses; a condução da política internacional, mais baseada na diplomacia do que no enfrentamento; o pisar-em-ovos na política econômica, numa economia baqueada pela crise... são questões que servem como luva às intenções malsãs dos que preferem que fique tudo como está. Até o tenebroso Bin Laden, que não é bobo,  já pegou carona nesse bonde _ pois radical é tudo igual _ e usou a pecha de fraco que tentam pôr em Obama para incentivar seus jihadistas da Al-Qaeda: "podem atacar, que ele é um banana". 

O que é fraqueza? É não invadir o país dos outros sem motivo justificável? É tentar oferecer um sistema de saúde mais justo, que possa ser usufruído por todos, como acontece na maioria dos países da Europa? É lidar cautelosamente com a herança maldita dos anos Bush? É preferir o diálogo e escutar o que diz a outra parte? É não dar o murro na mesa e reconhecer "the otherness of others"? Se for assim, vamos todos ser fracos, com muita honra _ e em paz com nossas consciências.


Terça-feira, Setembro 08, 2009

na idade da razão - aniversários

Antigamente as festas de aniversário de criança eram simplérrimas e divertidas. A gente juntava uns dois ou três amigos(as) para soprar bolas, fazer brigadeiro e cachorro-quente e pronto. Hoje as festas infantis são produzidíssimas, caríssimas, organizadas por empresas especializadas e com a presença infalível dos 'animadores'. Nas festinhas antigas, a animação vinha das crianças mesmo, era só os pais chegarem no local e deixar que elas mesmas inventassem suas brincadeiras. A gente ficava lá só olhando, batendo papo com outros pais e mães e comendo o brigadeiro cuspido por nossos filhos e filhas. Todo mundo se divertia à beça.

Hoje, ai de nós, as crianças querem as festas superproduzidas, apoteóticas, bem diferentes, por exemplo, da festinha que aparece na foto acima, quando minha filha Clarinha (na foto, com a irmã, Aninha) fez 11 anos e organizamos um piquenique no Parque da Cidade _ local hoje infrequentável, devido à violencia e aos assaltos constantes na área.

Agora é a vez da geração seguinte.

Ele vai fazer sete, que, dizem várias tradições, é quando começa o livre-arbítrio. Chegou pra nós num momento especialmente conturbado, exatamente uma semana depois da partida de minha mãe. O que foi uma prova, pelo menos pra mim, de que a vida tem sempre razão.

A mãe dele acha que na festa de 16 anos, ou seja, em 2018, ela terá de mandar fazer um convite igual ao que está acima. Vamos ver. O tempo dirá. Festa em Marte, eu diria, talvez só quando ele estiver completando trinta, e aí ele mesmo convida. Por enquanto ele só quer saber de futebol, judô e computador. E dos primeiros livros, agora que se alfabetizou e descobriu um novo mundo. Ele mesmo responde aos e-mails. Crianças modernas fazem tudo isso, claro. Difícil é fazer com que eles topem uma festa mais simplezinha... Parece que este ano conseguimos.


Quinta-feira, Setembro 03, 2009

rio de janeiro forever

Não é sempre que os cariocas conseguem ir à praia, a não ser os que moram em frente (ou quase, como era o caso de minha mãe) ou os que têm tempo de sobra, o que não é nosso caso. Hoje conseguimos. O final de inverno surpreendeu e tem tido dias lindíssimos _ o mar com águas límpidas, a praia calma, naquele horário em que só tem criança e idoso. Ipanema hoje estava tinindo. Como amamos essa cidade!

(na verdade, foi a primavera que chegou mais cedo: aqui em casa, gerânios e orquídeas já deram o ar da graça....)

Pesquisa da revista Forbes coloca o Rio de Janeiro como a cidade mais feliz do mundo. Segundo o organizador da pesquisa, isso reflete a percepção das pessoas, não a realidade, obviamente. Falta muito para o Rio ser uma cidade mais justa e feliz de verdade. Mas a impressão geral é a que conta, e a lista mundial ficou assim:

Veja abaixo o ranking da Forbes:

 

1º - Rio de Janeiro (Brasil) 

2º - Sydney (Austrália) 

3º - Barcelona (Espanha) 

4º - Amsterdã (Holanda) 

5º - Melbourne (Austrália) 

6º - Madri (Espanha) 

7º - São Francisco (EUA) 

8º - Roma (Itália) 

9º - Paris (França) 

10º - Buenos Aires (Argentina)

 

 

Vejam que bonita essa vista da Lagoa, nosso bairro, nosso lugar. Dá pra ser feliz? Dá. É melhor ser alegre que ser triste.


Domingo, Agosto 30, 2009

notícia triste


E foi-se mais um grande músico, Ion Muniz. Brilhante sax-flautista, que conheci aos 18 anos, já tocando tudo; depois estivemos juntos no México, como integrantes do grupo de Luiz Eça, Sagrada Família. Mais adiante o reencontrei em NY em 1977, e posteriormente, já no Brasil, ele participou de várias gravações minhas. Os caminhos da vida nos levaram para lados bem diferentes. Mas foi um dos maiores músicos que já vi tocar, quando esteve na sua melhor fase.

Paris, 1989, em casa de uma amiga: fazíamos uma audição do meu CD do momento, 'Negro Demais No Coração'. A faixa era 'Canto de Ossanha'. Um jornalista presente veio me perguntar de quem era o belíssimo solo de tenor: "essa liberdade e inventividade, eu só tinha visto antes em John Coltrane", disse ele. Era um solo do Ion.

"A vida toda que poderia ter sido e que não foi" (Manuel Bandeira)

PS- finalmente, uma foto recente do Ion.


Quinta-feira, Agosto 27, 2009

humor carioca


caminho das indies
(by Guilherme Bezerra, cortesia de Clara Moreno)


Domingo, Agosto 23, 2009

a todo vapor

A vida está um pouco mais confusa do que as imagens acima _ que aliás, bem explicadas, são claríssimas: trata-se da tradução de uma ultrassonografia. Tudo é uma questão de explicação.

Estamos em período de shows pra lançar nosso amado Slow Music, que já nos deu inúmeras alegrias e alguns pequenos dissabores. Hoje li na revista semanal que estou lançando um CD inspirado no movimento Slow Food (correto), que combate o uso de comidas pesadas (falso). Lendo à primeira vista, a impressão é de que com este CD estarei combatendo, quem sabe, a perigosa feijoada da tia Surica, que acontece semanalmente no mesmo bat-local do nosso show de lançamento. 

A pressa é inimiga da compreensão. O jornalismo cultural também podia ser um pouquinho mais slow.


Segunda-feira, Agosto 17, 2009

de manhã no hotel

O clima ficou estranho quando os três homens de terno entraram no elevador do hotel, dois deles de terno escuro e sapato social. O terceiro usava um terno quadriculado de cor clara, de feitio espalhafatoso e cafona, sapatos de verniz-crocodilo, anel de ouro no mindinho, muita brilhantina no cabelo. Um figurino demodé de gangster, cafetão, bicheiro, talvez. Os dois de terno escuro eram visivelmente seguranças do homem de terno claro e sapatos de verniz, que falava alto e dava as ordens. A vibração dos três era pesada, principalmente a do chefe.

Desceram junto conosco até o andar do café da manhã, onde outro homem, um mulato gordo vestido ao mesmo estilo, já os esperava na mesa. Não tinham ido lá em busca do café, e sim da reunião. O salão ficou em suspense quando o gordo fez menção de abrir uma pasta preta. Será que dali iria sair uma arma? Tiroteio no hotel?

Ele tirou da pasta uma bíblia, mostrou a passagem escolhida e confabulou rapidamente com o homem de terno quadriculado, acertando os detalhes do próximo sermão. Eram pastores evangélicos. Saíram do salão com os garçons dizendo "amém" e "aleluia".

Deus nos proteja de alguns de Seus representantes.


Sexta-feira, Agosto 14, 2009

nas palavras do Ruy


Ruy Castro é um craque absoluto das palavras. Sou fã de tudo o que ele escreve sobre música, cinema e literatura. Nossas opiniões não precisam necessariamente ser as mesmas, mas a dele está sempre tão bem exposta que o leitor fica em dúvida e acaba se rendendo ao texto delicioso, que é o que interessa, antes de mais nada.

(na foto acima, Adelaide, chef e proprietária da Tasquinha da Adelaide, Lisboa. O assunto aqui tem tudo a ver!)

Nesta quarta-feira tive a honra de estar presente na coluna dele na Folha de SP. Docemente constrangida, porém definitivamente orgulhosa, divido com vocês o comentário do Ruy sobre slow food e slow music, onde meu CD é um feliz coadjuvante.


                          AO RITMO DO CORAÇÃO


Em 1986, um sociólogo italiano, Carlo Petrini, liderou um protesto contra a instalação de um McDonald's na Piazza di Spagna, em Roma. Os manifestantes brandiam pratos de penne para demonstrar sua aversão à fast food: os cheeseburgers que as pessoas devoram às pressas, de pé, num balcão, babando ketchup e sem consideração pelo próprio estômago.

O McDonald's venceu, mas daquele ato nasceu um movimento pela slow food _ para conscientizar as pessoas a que valorizassem suas refeições, comendo produtos mais frescos, se possível regionais, e recuperassem a noção de convívio em torno de um prato de comida. Aos poucos, o movimento espalhou-se pela Europa, infiltrou-se no próprio QG do inimigo, os EUA, e até chegou timidamente ao Brasil.

Mas o importante é que o princípio da slow food não precisa limitar-se à comida. A cantora Joyce inspirou-se em Petrini e adaptou esse princípio à música, em seu novo e belo disco, "Slow Music", cheio de clássicos antigos e modernos, que não tocará no rádio*. "(Este é) um álbum feito de silêncios e pausas", diz ela no encarte. "A pausa é um momento importante da música. Sem silêncio, não existe som. Sem o claro-escuro, não se veem todas as nuances da cor."

Muitos fatores contribuíram para o ritmo avassalador tomado pela música popular nas últimas décadas _ um ritmo que não condiz com o batimento cardíaco e que, para ser tolerado, exige o uso de substâncias que acelerem tal batimento. Um deles é a nossa omissão. Deixamo-nos vergar pela tecnologia sonora, pela mídia e por essa exótica categoria  "artística": os DJs.**

Fast food é junk food, como se sabe, e há uma relação óbvia entre junk food e junk music: se as pessoas comessem a música que a mídia lhes serve para ouvir, já estariam mortas há muito tempo.

RUY CASTRO (Folha de SP, 12/08/2009)

*única ressalva: não tocará nas rádios convencionais, mas pelo menos no programa Londrina Jazz Club, já tocou...

** aqui discordo do Ruy em parte: é necessário que se dê um crédito a esses profissionais que tocam nossos discos nas pistas, já que muitos deles foram responsáveis diretos pela vigorosa retomada da música criativa brasileira no exterior, a partir dos anos 90. A maioria dos que conheço é movida por um sincero amor pela música. Quanto a bate-estacas e remix... é outra história. Comigo, não...

...e um PS final: a comida da Adelaide é uma maravilha slow. Saudades!


Sábado, Agosto 08, 2009

United breaks guitars... e a Continental também!

O instrumento que tenho em mãos aí na foto chama-se Frameworks. Trata-se de um violão criado pelo luthier alemão Frank Krocker, que alia a extrema qualidade sonora a um ponto importante: é desmontável ("tirável e pôvel", como dizia um amigo meu). O que significa que cabe numa espécie de mochila e se ajusta perfeitamente a cabines de avião. Por isso tem esse design tão diferente, perfeito para viagens. Ainda assim, no furor pós-11 de setembro, durante uma viagem de Nova York a Cleveland, fui obrigada a despachá-lo, pois a comissária de bordo entendeu que eu não poderia entrar no avião com ele. Não deu outra: à noite, na hora do show, a parte eletrônica estava danificada, o pickup estragado, e o violão não funcionou. E não funcionaria mais durante o resto da tour, o que nos obrigou a mudar todo o roteiro dos shows e a dividir o violão sobrevivente com meu parceiro Dori Caymmi (por sorte, havia dois instrumentos conosco). 

Passei o resto da turnê discutindo com a Continental Airlines e cobrando responsabilidades. Meu precioso tempo fora do palco foi gasto com telefonemas, tentativas infrutíferas de resolver o problema, uma parada na Yamaha de Los Angeles para recolher um parecer técnico por escrito, ligações para a Alemanha para falar com o fabricante (e obter dele, via fax, o mapa do pre-amp), e por aí vai. De nada adiantou, ficou por isso mesmo e a companhia aérea deixou bem claro que estava se lixando para o meu caso. Quem mandou eu viajar com meu instrumento de trabalho? Tive de esperar até uma próxima viagem à Europa para que o próprio Frank pudesse consertar o estrago.

Não era a primeira vez que isso me acontecia. A United Airlines também quebrara antes um outro violão meu, ainda nos anos 90. No caso, tratava-se de um violão convencional, de corpo de madeira, que de fato poderia parecer um trambolho dentro da cabine. Por isso, quando comprei meu primeiro Frame, achei que meus problemas tinham acabado. Doce ilusão...

Essa situação é recorrente com músicos, e até mesmo as baquetas do Tutty já foram proibidas de entrar num avião, sob o pretexto de que poderiam ser usadas como arma em caso de sequestro. Com violões, a implicancia é antiga. Por isso mesmo não me espantei com o email que recebi hoje de um amigo. Conta a história de um músico americano que teve seu violão quebrado num voo da United Airlines. Depois de um ano (!) tentando em vão que a companhia assumisse a responsabilidade, ele produziu com os músicos da banda um clipe barato e hilário, com a canção intitulada  "United Breaks Guitars". Um hit instantaneo, com mais de 4 milhões de acessos na internet. Consta que a indigitada companhia aérea já tentou negociar de todas as formas a retirada do clipe do youtube, sem sucesso. Bem feito.

Vejam aqui o clipe e depois me contem: 
http://www.youtube.com/watch?v=5YGc4zOqozo


Segunda-feira, Agosto 03, 2009

concursos, parte II

                 (no estúdio, com Clarinha e Aninha, 1980)

Pois.

Continuando o assunto 'festivaias', eis que depois de algumas passagens mais ou menos bem-sucedidas por outros eventos _ sim, eu tinha 19, 20 anos, e não ia me intimidar por tão pouco... Não era 'coragem' nem 'raça' (quem me dera!), mas simples ingenuidade, irresponsabilidade de juventude. E assim foi que em festivais posteriores 'defendi' músicas de amigos como Toninho Horta, Danilo Caymmi, Helcio Costa (irmão de minha amiga Sueli), Nelson Angelo e outros de quem não me lembro. E minhas também, como 'Copacabana Velha de Guerra', já mencionada em outro post, que apresentei no famoso FIC, o Festival Internacional da Canção, feito pela TV Globo, que rivalizava com o da TV Record em importancia. Era o Maracanãzinho de novo, mas desta vez até que não me saí mal.

(o arranjo do festival, respondendo ao Renato, foi do Luiz Eça, que também fez o arranjo da gravação de estúdio)

Havia festivais para todos os gostos, de que todo o mundo participava: festivais universitários, televisivos, interioranos, de cidades menores como Juiz de Fora (onde, novamente com o Momentoquatro, tive bastante sucesso cantando 'Litoral', de Toninho e Ronaldo Bastos) ou cidades maiores como Belo Horizonte  _ neste, em 1969, eu e Toninho ficamos em 5º lugar com a música dele, "Yarabela", e seria _ o festival, não "Yarabela" _ talvez o marco inaugural de um movimento que dali a dois anos estaria imortalizado em disco, com o título de uma das canções concorrentes: "Clube da Esquina". Ali também conheceríamos pela primeira vez dois talentosos garotos beatlemaníacos de 17 anos, Lô Borges e Beto Guedes. Só na hora em que pisaram no palco o público descobriria que se tratava de dois rapazes, pois a apresentadora anunciara "as compositoras Helô Borges e Beth Guedes". Coisas da época.

Passou o tempo dos festivais. Casei, tive filhas, dei um tempo na música, depois me separei e voltei a me entender com meus sons. Eu largara a música, mas a música não me largara, e assim viajei pela Europa e pela América do Sul com Vinicius e Toquinho, gravei na Itália, voltei ao Brasil, fiz parte do Academia de Danças com Egberto Gismonti, fui para Nova York e gravei lá também... A vida continuava.

E eis que voltando ao Brasil em definitivo, já casada de  novo e com mais um bebê em casa, assinei um contrato com a EMI-Odeon para gravar um disco todo meu. A compositora estava bombando, eu estava tendo minhas músicas gravadas por todo o mundo que importava naquele ano de 1979 _ Elis, Milton, Ney, Bethania, Nana e mil outros mais. A gravadora achou que valeria a pena me contratar, e em janeiro de 1980 entramos em estúdio para gravar o que seria meu disco-emblema, "Feminina".

Entre as músicas do repertório havia uma berceuse (letra minha sobre música de Mauricio Maestro) feita durante a temporada na Itália, com saudades de minhas (então) duas meninas, que estavam no Brasil com a avó. E eis, mais uma vez, que a Globo resolveu patrocinar um novo festival. Eu não tinha a menor ilusão a respeito, nem pretendia fazer mais parte daquilo. Mas por insistencia da gravadora, topei inscrever uma música. Só que praticamente todo o repertório do 'Feminina' já havia sido gravado por algum outro artista antes _ 'Mistérios' por Milton e Boca Livre, 'Feminina' pelo Quarteto em Cy, 'Da Cor Brasileira' por Bethania, 'Essa Mulher' por Elis, e por aí vai. Não havia mais quase nada inédito que pudesse ser inscrito. Sobraram "Aldeia de Ogum', um tema instrumental, sem letra, que não poderia, por motivos óbvios, participar _ e minha despretensiosa berceuse, 'Clareana'.

(Nessa hora os escritores americanos fazem uma pausa dramática e dizem "o resto é história". Vou pular essa parte.)

E vamos ao Maracanãzinho, já na final do festival MPB-80. A esta altura, 'Clareana ' já era um sucesso nacional, que pipocara espontaneamente desde a primeira apresentação nas eliminatórias. Tocava direto no rádio (o famoso jabá ainda não havia se tornado uma instituição semi-oficial), eu aparecia em todos os programas de TV, enfim, era sucesso real e absoluto, um legítimo sucesso pop. Pelas razões erradas, talvez, pois não refletia exatamente a minha música, mas era.

Na véspera da final eu estava passeando com minha filha menor na pracinha perto de casa, quando encontrei meu vizinho Oswaldo Montenegro, também concorrente. E tivemos uma conversa engraçada. Eu disse, e ele concordou, que esperava sinceramente não vencer o concurso, para não ficar com o estigma do festival na carreira, que a música que eu queria fazer não tinha nada a ver com aquilo tudo (e ele dizendo "eu também acho, eu também acho"...), enfim, um papo bem alternativo mesmo.

Corta pro Maracanãzinho na noite seguinte. Quando meu nome foi anunciado, o ginásio veio abaixo _ e desta vez, de aplausos. Na hora em que subi ao palco, lembro claramente que pensei mais ou menos o que Julia Roberts disse quando recebeu um Oscar: "vou aproveitar ao máximo este momento, que não sei se irá se repetir na minha vida". E assim, em vez de ficar fria e fazer uma apresentação profissional, deixei deliberadamente que a emoção tomasse conta de mim.

E deu no que deu: a acústica traiçoeira do Maracanãzinho, uma briga que estourou de repente nas arquibancadas, com parte da platéia chamando a polícia, a orquestra que não se ouvia, o som do meu violão que também tinha sumido _ e lá se foi por água abaixo a maravilhosa apresentação. Entrei totalmente em outro tom, um desastre quase completo, salvo pelo pessoal do Viva Voz, grupo vocal que me acompanhava na canção. Na segunda vez, retomei o tom correto, mas o mal já estava feito. Só que, incrivelmente, ninguém reparou. A canção conquistara o público de tal modo que minha péssima performance passou despercebida, ainda bem. Posso dizer em minha defesa que foi a única vez que isso me aconteceu, embora aconteça com frequencia nas melhores famílias. Mas foi o suficiente para me deixar chateada. Eu sabia que não tinha ido bem. E aprendi outra lição para a vida: emoção sem controle no palco _ evite.

PS- O festival foi vencido por meu vizinho, o que muito me aliviou na ocasião, mas não adiantou nada: até hoje tem gente que pensa que quem ganhou fui eu.